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Depressão
Vou escrever sobre depressão, uma das patologias mais frequentes na população em geral. Embora frequentemente discutida por todos, nem sempre é claramente identificável e suficientemente compreendida.
A que corresponde então o padecer de uma depressão? De uma forma sucinta e esclarecedora, podemos dizer que esta problemática corresponde fundamentalmente a um estado anímico de baixa pressão. Ou seja, uma diminuição da energia psíquica e física, e da motivação e interesse pelo real circundante. É um estado de abatimento, de menor vivacidade, de falta de energia e motivação para a vida. Este estado está associado a um sentimento de falta de esperança, a uma tristeza que pode ser mais ou menos evidente e que se vai prolongando ao longo do tempo. A acompanhar este abatimento, juntam-se uma auto-estima diminuída, bem como sentimentos de auto-culpabilização tendencialmente aumentados.
Quando falamos de depressão, falamos de tristeza? Sim, sem dúvida. Nalguns casos, de uma tristeza algo difusa mas corrosiva que parece tomar prolongadamente conta de quem a sente. Uma tristeza difusa porque por vezes não é bem percebida como tristeza, mas antes como falta de ânimo e de esperança. Um exemplo disso é que, subjacente ao que pode ser catalogado de preguiça, pode estar uma depressão. Podendo suceder o mesmo quando estamos perante outros comportamentos (aquilo que designamos por sintomas): atitudes persistentemente pessimistas, sentimentos de falta de esperança, dificuldades de concentração, baixa auto-estima, apetite diminuído ou aumentado, comportamentos aditivos em relação ao álcool ou outras dependências, insónia ou hipersónia, e outros.
Tendo em conta a forma como surge esta problemática, é comum distinguirem-se duas formas de depressão: as depressões reactivas e as depressões endógenas. Quanto às primeiras, elas consistem num abatimento e tristeza mais forte e prolongada por reacção a acontecimentos sentidos como particularmente penosos. Exemplos mais comuns serão a morte de pessoas afectivamente significativas, separações amorosas, doença do próprio ou doença de alguém afectivamente importante, problemas económicos e/ou profissionais, ou tudo o mais que seja sentido como particularmente doloroso para aquela pessoa em particular. Já as depressões endógenas, elas aparentam não advir de um qualquer acontecimento específico. Digamos que existe um humor depressivo sem que se identifique conscientemente um motivo para o mesmo. A pessoa permanece entristecida, abatida, pessimista, sem que exista um motivo óbvio para tal.
= =
Podemos igualmente falar em depressividade como traço de personalidade. Quando assim é, existe como que um abatimento geral como modo de estar na vida, acompanhado de um estado de desânimo e propensão à desistência. Estamos nestes casos perante um funcionamento de certo modo pessimista, em que a pessoa parte muitas vezes para as suas causas com a sensação de provável derrota. Os entusiasmos costumam ser temporários e dependentes de estímulos exteriores, como acontece com o consumo de álcool ou drogas, ou com a ligação a alguém ou a causas que são empoladas como sendo ideais. Portanto, costumam ser entusiasmos alimentados pelo exterior.
Nesta forma de funcionamento pessoal, a imagem positiva de si e confiança positiva em si dependem muito do sentir-se amado e apreciado pelos outros. E o inverso, o sentir-se desamado e desapreciado mobilizam uma auto-imagem negativa e baixa autoconfiança. É como se o indivíduo se visse ao espelho, e a imagem que vê de si é aquilo que é devolvido pelos outros na sua relação com eles. Portanto, há grande expectativa e susceptibilidade - grande dependência, digamos - em relação às circunstâncias e reacções do exterior. Na verdade, no âmago deste funcionamento está a necessidade de aconchego e um imenso desejo de ser amado, de ser apreciado no seu valor próprio. Isto acontece porque existe a sensação, mesmo que inconsciente, de uma grande carência a esse respeito por se ter recebido menos do que o desejado.
= =
É possível adiantar uma explicação para esta problemática? É claro que a explicação é muito particular e específica ao sentir e vivência de cada pessoa em particular. No entanto, no geral, podemos destacar uma explicação para esta e outras problemáticas do campo da saúde mental: a tendência a relegar para segundo plano a vivência e comunicação dos afectos. Dada a necessidade de corresponder a várias outras exigências do dia a dia, economiza-se no que diz respeito a entender as emoções e a referencia-las nas relações com os outros. Até perante a morte de alguém parece que tendemos a ser "fortes" e economizar na expressão da dor que essa morte nos trás. O recurso aos comprimidos e outra medicação serve frequentemente de substituto aos cuidados, afecto e presença humana efectiva. É o que leva algumas pessoas repetidamente ao médico a fim de lhe apresentar as suas queixas físicas, quando afinal o seu principal desejo é o de obter alguma atenção preocupada da parte de outrem.
É de realçar que o tratamento e resolução da depressão passa obrigatoriamente pela aceitação autentica, sincera e praticada de si próprio. Em lugar de viver de acordo com o que é suposto ser, porque é o esperado por x, y ou z.
Dora Bicho
Vou escrever sobre depressão, uma das patologias mais frequentes na população em geral. Embora frequentemente discutida por todos, nem sempre é claramente identificável e suficientemente compreendida.
A que corresponde então o padecer de uma depressão? De uma forma sucinta e esclarecedora, podemos dizer que esta problemática corresponde fundamentalmente a um estado anímico de baixa pressão. Ou seja, uma diminuição da energia psíquica e física, e da motivação e interesse pelo real circundante. É um estado de abatimento, de menor vivacidade, de falta de energia e motivação para a vida. Este estado está associado a um sentimento de falta de esperança, a uma tristeza que pode ser mais ou menos evidente e que se vai prolongando ao longo do tempo. A acompanhar este abatimento, juntam-se uma auto-estima diminuída, bem como sentimentos de auto-culpabilização tendencialmente aumentados.
Quando falamos de depressão, falamos de tristeza? Sim, sem dúvida. Nalguns casos, de uma tristeza algo difusa mas corrosiva que parece tomar prolongadamente conta de quem a sente. Uma tristeza difusa porque por vezes não é bem percebida como tristeza, mas antes como falta de ânimo e de esperança. Um exemplo disso é que, subjacente ao que pode ser catalogado de preguiça, pode estar uma depressão. Podendo suceder o mesmo quando estamos perante outros comportamentos (aquilo que designamos por sintomas): atitudes persistentemente pessimistas, sentimentos de falta de esperança, dificuldades de concentração, baixa auto-estima, apetite diminuído ou aumentado, comportamentos aditivos em relação ao álcool ou outras dependências, insónia ou hipersónia, e outros.
Tendo em conta a forma como surge esta problemática, é comum distinguirem-se duas formas de depressão: as depressões reactivas e as depressões endógenas. Quanto às primeiras, elas consistem num abatimento e tristeza mais forte e prolongada por reacção a acontecimentos sentidos como particularmente penosos. Exemplos mais comuns serão a morte de pessoas afectivamente significativas, separações amorosas, doença do próprio ou doença de alguém afectivamente importante, problemas económicos e/ou profissionais, ou tudo o mais que seja sentido como particularmente doloroso para aquela pessoa em particular. Já as depressões endógenas, elas aparentam não advir de um qualquer acontecimento específico. Digamos que existe um humor depressivo sem que se identifique conscientemente um motivo para o mesmo. A pessoa permanece entristecida, abatida, pessimista, sem que exista um motivo óbvio para tal.
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Podemos igualmente falar em depressividade como traço de personalidade. Quando assim é, existe como que um abatimento geral como modo de estar na vida, acompanhado de um estado de desânimo e propensão à desistência. Estamos nestes casos perante um funcionamento de certo modo pessimista, em que a pessoa parte muitas vezes para as suas causas com a sensação de provável derrota. Os entusiasmos costumam ser temporários e dependentes de estímulos exteriores, como acontece com o consumo de álcool ou drogas, ou com a ligação a alguém ou a causas que são empoladas como sendo ideais. Portanto, costumam ser entusiasmos alimentados pelo exterior.
Nesta forma de funcionamento pessoal, a imagem positiva de si e confiança positiva em si dependem muito do sentir-se amado e apreciado pelos outros. E o inverso, o sentir-se desamado e desapreciado mobilizam uma auto-imagem negativa e baixa autoconfiança. É como se o indivíduo se visse ao espelho, e a imagem que vê de si é aquilo que é devolvido pelos outros na sua relação com eles. Portanto, há grande expectativa e susceptibilidade - grande dependência, digamos - em relação às circunstâncias e reacções do exterior. Na verdade, no âmago deste funcionamento está a necessidade de aconchego e um imenso desejo de ser amado, de ser apreciado no seu valor próprio. Isto acontece porque existe a sensação, mesmo que inconsciente, de uma grande carência a esse respeito por se ter recebido menos do que o desejado.
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É possível adiantar uma explicação para esta problemática? É claro que a explicação é muito particular e específica ao sentir e vivência de cada pessoa em particular. No entanto, no geral, podemos destacar uma explicação para esta e outras problemáticas do campo da saúde mental: a tendência a relegar para segundo plano a vivência e comunicação dos afectos. Dada a necessidade de corresponder a várias outras exigências do dia a dia, economiza-se no que diz respeito a entender as emoções e a referencia-las nas relações com os outros. Até perante a morte de alguém parece que tendemos a ser "fortes" e economizar na expressão da dor que essa morte nos trás. O recurso aos comprimidos e outra medicação serve frequentemente de substituto aos cuidados, afecto e presença humana efectiva. É o que leva algumas pessoas repetidamente ao médico a fim de lhe apresentar as suas queixas físicas, quando afinal o seu principal desejo é o de obter alguma atenção preocupada da parte de outrem.
É de realçar que o tratamento e resolução da depressão passa obrigatoriamente pela aceitação autentica, sincera e praticada de si próprio. Em lugar de viver de acordo com o que é suposto ser, porque é o esperado por x, y ou z.
Dora Bicho
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