Pensemos, sobre o que é ser tímido. Como ponto de partida, como gosto de fazer, consultemos um Dicionário da Língua Portuguesa. Neste caso o da Porto Editora, 6ª edição. Em timidez encontramos: "carácter daquele a quem falta segurança nos seus empreendimentos e principalmente nas suas relações com aqueles que lhe são familiares; temor habitual; acanhamento."
Reportando-nos agora ao que vemos em redor, encontramos meninos tímidos, quase com medo de existir, raparigas ou rapazes que parecem apagados; adultos pouco afirmativos, que raramente dão uma opinião, muito menos antes de saberem a opinião dos outros. Por algum motivo, estes meninos e meninas, depois rapazes e raparigas e finalmente adultos, receiam expor-se por medo de represálias (seja de que tipo forem) que recebam dos outros. Ou seja, receiam a confirmação de que a sua opinião ou desejos nada valem. Porque têm interiorizada a ideia de que os outros são sempre melhores e mais sabedores.
É uma visão sobre a sua auto-imagem que nasceu precocemente e não teve propulsor que permitisse um desvio a caminho de uma imagem de si mais descomplexada e desculpabilizadora. A pessoa cresce sentindo-se inferior aos outros, e com vergonha de se expor. Digamos que perante os outros, sente-se diminuída, muito pequenina. É a tendência a controlar e esconder o que vai dentro de si, em lugar de exteriorizar, de deitar para fora.
A retracção em chegar-se à frente, tem a ver com uma ideia grandiosa do que seria o ideal de si mesmo. Não se sendo esse ideal, ou seja, o melhor, o grandiosamente reconhecido, a pessoa sente sempre, no seu interior, que só pode ser uma porcaria.
Muitas vezes, a timidez e vergonha estendem-se à expressão dos afectos. Estes são reprimidos, o que não significa a ausência de desejo de os viver, bem pelo contrário. Quanto maior o jejum de afectos, maior o desejo de os ter, e a pessoa acaba por vezes por submeter-se a relações afectivas pouco compensadoras para receber apenas algumas migalhas de amor, que mantêm a esperança de vir a receber um dia todo o amor desejado.
Claro que, quando isto se passa, o processo de transformação individual passa pelo desmontar desta auto-imagem de si desvalorizada e empobrecida, e desidealização dos Outros, de todos os outros.
Dora Bicho
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